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Jornal Nº 201
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Entrevista com Ulysses Cazallas

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Texto de: 14/06/2006 Por Luciana Vaz

Acervo pessoal



Ulysses Cazallas, vencedor por unanimidade no programa Calouros em Desfile de Ary Barroso

Wilson Barthiman



Gaita cromática modelo Chromonica II de Luxe, fabricada pela Hohn

Arquivo Gaita-BS



No centro, Cazallas tocando gaita baixo em encontro do Gaita-BS
O Virtual - Como e quando você conheceu a harmônica e resolveu tocar? E daí para frente, como tem sido a sua carreira?

Ulysses Cazallas - Quando eu completei 10 anos de idade, um tio por afinidade deu-me de presente uma gaita diatônica do modelo trêmulo, com afinação Richter chamada Vencedora, até hoje fabricada pela Hering Harmônicas. Passado uma semana, eu estava tocando frases de músicas das paradas radiofônicas de 1943 conhecidas por mim; os adultos olhavam-me como que gostando e oferecendo seus apoios. Passados quatro anos, também em meu aniversário, recebi como presente de uma tia uma harmônica cromática com 64 vozes da fabricação Hohner (tenho essa harmônica até hoje). Naquela época, eu tive como ídolos inspiradores o nosso ilustre precursor da gaita no Brasil Eduardo Nadruz (Edu da Gaita). Larry Adler e John Sebastian me fascinavam e não poderia deixar de citar uma orquestra de gaitas intitulada Borrah MInevitch and His Harmônica's Rascals que fazia sucesso internacional em 1941 através do filme Sempre no Meu Coração. Este último me impulsionou no sentido de organizar grupos de harmonicistas (ou gaitistas): trios, quartetos, quintetos, sextetos, e assim por diante. Organizei muitos grupos desse gênero e liderei outros tantos; não caberia aqui descrever em quantos programas de rádio, televisão e teatros obtivemos sucesso.



O Virtual - Quantos tipos de gaitas diferentes existem?

Cazallas - Oficialmente existem gaitas: diatônicas afinadas no sistema Richter ou não, gaitas cromáticas de diversos modelos como a simples cromática que é dotada de uma chave (registro) para a execução dos acidentes musicais e as polifonias que não possuem a chave, baixo que executa sons muito graves, e a polifonia de acordes (apelidada de vineta aqui no Brasil). Não oficialmente, em grandes grupos de harmonicistas existem gaitas preparadas. Elas são modificadas partindo-se de gaitas oficiais. São para efeitos de sons impossíveis de serem executados pelas gaitas oficiais; esse número é imprevisível porque eu mesmo já tive a oportunidade de modificar no mínimo trinta. No meu acervo de instrumentos guardo três cromáticas 64 vozes originais, nove cromáticas 48 vozes, sendo que algumas estão modificadas para afinações em modo menor, acordes com 6ª., e acordes diminutos, uma de acordes que parece uma cromática normal que chama Chordomonica -I. No decorrer dos anos, consegui adquirir aproximadamente 100 CDs de gaitistas de cromática, 100 CDs de gaitistas de blues, 52 fitas VHS contendo vídeos-aula e gaitistas nacionais e internacionais. Eu diria que tudo é diferente e importante em meu acervo. Entretanto tenho um carinho muito grande por uma fita VHS elaborada por um amigo, Clive L. Popelbaum, que mostra o seu caminho inicialmente orientado por mim na formação do grupo os Harmonips.



O Virtual - É mais difícil ser músico hoje ou quando você começou?

Cazallas - A resposta à essa pergunta é muito fácil mesmo (rsrsrs). Naquela época, não havia a concorrência que existe hoje.



O Virtual - Você vive exclusivamente do ofício da gaita ou tem outra profissão?

Cazallas - Minha formação é de Engenharia Industrial. Durante todo meu tempo de trabalho em indústrias, sempre mantive o estudo da música e da gaita em paralelo. Hoje vivo exclusivamente da gaita: lecionando, vendendo métodos de ensino para autodidatas, fazendo manutenção e customização.



O Virtual - Como profissional de manutenção e customização de gaita de boca você é sempre apontado como referência. Uma gaita que você consertou foi essa da foto. Que tipo de gaita é essa? Faz alguma idéia de quando foi fabricada?

Cazallas - O modelo da gaita exposta é cromática 48 vozes com o registro embutido, modelo Chromonica II de Luxe, fabricada pela Hohner em aproximadamente 1950. Essa referência está fora de linha de fabricação. A gaita cromática foi desenvolvida por Borrah MInevitch, russo radicado nos Estados Unidos em 1918. É muito difícil fazer manutenção em uma gaita fora de linha de fabricação por não existirem as peças originais para reposições e assim as peças precisam ser feitas artesanalmente.



O Virtual - A maioria dos gaitistas prefere o blues ou pelo menos essa é a impressão que as pessoas têm. Você se define em algum gênero?

Cazallas - Não sou um bluesman, sou mais eclético.



O Virtual - Que meios você usa para se manter antenado com o cenário da gaita tanto no Brasil quanto no exterior?

Cazallas - Usando a minha sempre honestidade: não fico antenado com o cenário internacional da gaita porque sem modéstia, conhecido como sou em nosso país e em algumas partes do exterior, as notícias me chegam naturalmente. Fico feliz quando as recebo. Eu acompanho o crescimento de gaitistas da nova safra nacional e internacional, mas não posso citar nem um nome sequer porque todos eles são merecedores de breves destaques por serem estudiosos e muito dedicados aos seus empreendimentos. Eles mesmos devem estar nesta leitura, sabendo quem são meus preferidos.



O Virtual - E por falar em gaitista, já percebeu que, em muitos dicionários, só se encontra a palavra gaiteiro? Na maioria, nem gaitista, nem harmonicista. Como você vê essa questão?

Cazallas - No dicionário que possuo (não tenho mais o nome do autor) está escrito: "Gaiteiro, adj. Que galteia. Peralta, garrido; rapariga muito gaiteira. Folião; depois de velho, gaiteiro. S.m. Tocador de gaita". Mas todos nós, aficionados, sabemos que se trata da gaita de fole. Ainda no mesmo dicionário encontra-se "Harmônica, s.f. (de harmônico). Instrumento músico, com lâminas de vidro de tamanhos desiguais, produzindo sons diferentes; marimba. Harmônio portátil. Harmônica química, aparelho composto de um tubo de vidro ou de porcelana, que se faz vibrar, introduzindo nele a chama produzida por um gerador de hidrogênio". Entretanto, tem uma ilustração mostrando uma gaita (ou harmônica) no modelo da Echo da Hohner ou Vencedora da Hering. Baseado nessa ilustração, passei meus 63 anos de gaitista intitulando-me harmonicista. Nesse dicionário que está caindo aos pedaços, não existe a palavra harmonicista. Para o meu gosto, esse nosso tão querido instrumento deveria ser chamado de Gaita de Boca ou Harmônica de Boca, isto porque, em inglês é Harmonica Mouth, em Portugal é Harmônica de Beiços, na França é simplesmente Harmonika, na Alemanha, é Mundharmonika. Para o nosso nordestino é Realejo. E agora? O que posso afirmar é que tocar gaita, esse singelo instrumento, é sublime.



O Virtual - O gaita-l é uma lista O Virtual de discussões e o assunto lá é só gaita. Fale um pouco da importância desse grupo.

Cazallas - Esse grupo gaita-l, como outros que existem, o gaita-bs, gaita-bh, o harp-l, são excelentes aproximadores dos aficionados pela gaita, além de dar aos principiantes e não principiantes, informações que são verdadeiras jóias para o nosso pequeno mas tão aconchegante universo.



O Virtual - Você é paulistano, já morou em muitas cidades, hoje em Balneário Camboriú (SC). Tem família e amigos em Santos. Fale um pouco dessas andanças e da sua visita ao Gaita-BS.

Cazallas - Sou paulistano. Além de São Paulo, onde me criei, residi na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em Curitiba, porque fui convidado a fazer parte integrante da Orquestra Harmônicas de Curitiba em 1980, onde estive por uns 16 anos. Depois, Rio novamente. A seguir, novamente São Paulo, no litoral, agora em Balneário Camboriú (SC). Tenho parentes e muitos amigos em Santos (SP). Lá sempre passei férias escolares com meus falecidos avós maternos. Em dezembro de 2004, recebi uma homenagem atribuída aos meus feitos gaitíferos, organizada tão carinhosamente pelos integrantes do belo grupo gaita-bs e do gaita-l, que me emocionou muito com sua incomparável hospitalidade.



O Virtual - Na sua visão de internauta e músico, a internet é uma vitrine para todos os artistas, um veículo bom pra divulgar os trabalhos ou diminui a possibilidade de os músicos venderem seus CDs, já que os usuários da internet têm tudo à disposição, inclusive download das músicas de seus artistas preferidos?

Cazallas - Eu considero a internet uma vitrine especial para todos os artistas, um bom veículo para divulgação do trabalho de cada um. É lamentável que exista a pirataria. Para evitar esse problema, o bom é fazer o que fazem alguns artistas, que deixam só um pequeno trecho musical como amostra grátis.



O Virtual - Em toda a sua trajetória, houve algum ou alguns momentos mais marcantes?

Cazallas - Os momentos mais marcantes em minha trajetória foram sempre aqueles em que a Orquestra Harmônicas de Curitiba precisou tocar: o Hino Nacional em formaturas, congressos, simpósios ou festividades comemorativas.



O Virtual - Pode dar alguma dica para quem é iniciante ou deseja começar a tocar a harmônica de boca?

Cazallas - Antes de estudar ou tocar em público, procure relaxar o máximo que puder, alegre-se, mas não exagere, sopre e aspire sempre bem leve fazendo com que a coluna de ar passe por sua garganta para sentir o quanto é refrescante. Nunca deixe que a euforia do momento faça com que toque com a força de seus pulmões. Toque com suavidade e expressão, por mais que a peça musical seja de um estilo barulhento.



Visite o site do músico Ulysses Cazallas.

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